A Perda

 

 

Ele pisou o assoalho com a delicadeza herdada de um elefante branco. Sutileza esta aflorada pelo perfume barato daquelas deusas canonizadas por seu imaginário. Elas são o seu remédio: posto perfeito para descarregar suas frustrações, o esporro do chefe, o contra-cheque, o latido do cão na madrugada, o mal humor de Ana, a dor de cabeça dela. Por recomendações pérfidas, ele ingeria, no mínimo, uma dose delas diariamente - acompanhada por uma vodka barata. Em algumas situações, recomendava-se várias doses de qualquer bebida barata, até que as deusas adquirissem formas sinuosas como as curvas da estrada de Santos; seios fartos e invictos perante a gravidade; fisionomia angelicalmente laica.

Praticamente todas as noites, após este tratamento terapêutico, ele pisava, delicadamente, o assoalho, na intenção de não acordar Ana. Executada aquela sinfonia rangente de madeira velha, parou em frente à porta e no tapete Welcome, estava Fred – sonolento, sorriu-lhe com três abanadas de rabo e um esboço de levantar de orelhas. Fred, parecia ser o único na casa que sempre sentia prazer em recebê-lo. Quer fosse logo ao fim do expediente: de gravata afrouxada;  semblante carregado da vitória de ter matado um leão ao conseguir cumprir a promessa que fizera  à Ana na noite anterior (voltar para casa). Fred o recebia com presteza também nas noites que havia sido devorado pelo leão. “Bom garoto!”. Balbuciava ele para Fred, ao mesmo tempo que lhe retribuía o carinho. [As chaves!?] Já não sabia onde estavam as chaves, mas tinha que encontrá-las. Se Ana acordasse seria mais um mar de lágrimas, lamentações, uma enxurrada de [você é igual ao seu pai]; [porque eu não escutei mamãe]; [não tem mesmo jeito com você]; e por último:  PÁÁÁÁÁ!!! Porta na cara e um sofá duro e furado para passar o resto de noite.

 Ele procurava a chave e imaginava tê-la perdido quando foi tirar a carteira do bolso para pagar o Campary para aquela loura. [Ahh! Aquela loura... Que loura...]. Logo se lembrou do quanto ela lhe custou – o dinheiro da conta de luz, água e telefone do mês passado e também deste mês. Voltou a procurar pelas chaves. Poderia tê-las perdido quando se encostou no balcão ao lado de Mário: [É bicho, o trem não tá bão pro meu lado não. Lá na firma, tem nêgo querendo puxar o meu tapete.]. [Pô cara... já que você tocou no assunto...]. E Mário acendeu mais um cigarro enquanto convencia o seu pseudo-amigo de que este mundo vil, definitivamente, conspirava contra ele. Restava-lhe então amar os vícios. Não. Não foi nesta hora que perdera as chaves. Vasculhava cada bolso de sua roupa e elas (as chaves) tinham que estar ali. [Ah, devem ter ficado no carro]. Fez o trajeto inverso no assoalho - agora era sutil como uma manada de hipopótamos. [Xiiii! Não posso acordar Ana, nem o menino], dizia pra si mesmo ao destrancar o carro. Acendeu a luz e viu pendurado no retrovisor interno o sapatinho de Pedro. [O primeiro sapatinho de Pedrinho... ele que me protege...], dizia segurando com apenas um dedo seu pequeno amuleto. Vasculhou os bancos da frente sem nada encontrar. Virou-se para os de trás e os vasculhou simbolicamente. Ao virar-se, [Aaaaiiiii, puta merda! Minha coluna]. Lembrou-se de Ana: [vai procurar um médico. Vai indo você fica aleijado dessa coluna, homem!]. [Ana, ah Ana!]. Boa era a época que eu não sentia a coluna. E, de tantos malabarismos que ele e Ana fizeram naquele mesmo banco traseiro do seu Fusca azul, Pedro viera. Pedro Souza Carvalho! Um bonito nome para um primogênito! Seu João da farmácia (pai de Ana) e a pequena população de Várzea da Palma não acharam. Tiveram que casar; criar responsabilidade e criar Pedro Souza Carvalho. [Quer saber? Não perdi nada com isso.], disse ele, mirando-se no retrovisor. [Opa! Por falar em perder, achei! Achei as chaves! Sabia que estavam aqui!]. Agora voltou a pisar o assoalho, silenciosamente, como uma rajada de fogos na festa da padroeira de Várzea. Fred, fielmente, mais uma vez  lhe sorriu com uma abanada e um esboço de orelhas.

 

Abriu a porta quase como que em um passe de mágica. Agora estava à salvo! Achou as chaves; entrou em casa e Ana e Pedrinho estavam dormindo com anjos. [Anjos... Eles são meus anjos. Ana sim é uma mulher digna... não é como aquelas prostitutas... vadias... aquela loura vadia... ahh aquela loura...]. [Uai!? Como assim!? Onde está Pedro!?]. [Já sei: com medo da bruxa! Dormindo com Ana]. [Tô vendo que vai me sobrar este sofá maldito...]. [Não é que a mulher nem deve tá tão brava assim?! Nem jogou minhas coisas pro sofá à fora!!!]. [Vai que tá me esperando na cama... linda! De camisolinha vermelha..] [Não! vermelho não é cor pra Ana! Azul, aquela bem clarinha]. Abriu a porta devagar e se deparou com o inesperado: não era que Ana estivesse dormindo feito um anjo vestida de azul-clarinho ou como um vício de vermelho provocante. Não era esta a cena com a qual se deparara. No lugar de Ana, havia apenas um pedaço de papel dobrado e dentro dele as seguintes linhas escassas e bem traçadas: [Cansei de perder. Perdi a paciência com você.]

 

 

 

 

 
 

...

 

Nunca amei alguém. E hoje pareço entender o porquê. Sou tão intensa que carrego em mim, naturalmente, todas as sensações de quem ama. E isto já basta. Amo independente de haver um alvo. Amo independente da coisa amada. Isto porque amo as coisas que eu invento.

 

Imagine Michelangelo rabiscando, de cima a baixo, a Capela Sisitina...

Imagine Da Vinci retalhando a Mona Lisa...

Imagine Van Gogh destruindo, a pontapés, seus girassóis...

Agora, me imagine destruindo esta cena perfeita que eu mesma criei.

 

E quando um beijo é capaz de silenciar palavras tolas de quem só quer disfarçar a timidez com uma reação verborrágica, passo do paraíso ao inferno num fechar de olhos!

 

Aí percebo que viver com o amor que eu criei é muito mais simples, mais cômodo, menos patológico e patético. No meu mundo é só eu e ele – o amor que eu criei – e não preciso que um telefone toque para que ele acorde. Não careço de uma mensagem na caixa postal para que ele sossegue. Não preciso de mãos firmes e respiração quente para que ele se refresque. Por outro lado, decidi que para merecer pelo menos uma letra da minha biografia, há de ser no mínimo perturbador. 

 

Me parece que os beijos bem articulados – aqueles que vêm acompanhados de mãos atrás da nuca e apnéia – me roubam a alma! Me seqüestram este amor que, por si só, solitário em mim, é tão cauteloso, e sereno, e leve, e absoluto.

 

 
 Oitava

Hoje o Luiz apresentou a monografia. O Davi nasceu. Já a Alê fez prova de matemática financeira. Mamãe foi ao banco. A Flávia fez mais uma entrevista. Eu limpei minhas gavetas; resolvi usar minha agenda e concluir tudo que um dia eu comecei e deixei de lado. Ouvi Clarisse e desejei ombros drumondianos. Ombros de aço! Que suportem o mundo. Ombros que suportem o peso da fuga: atitude comum àqueles que desejam uma sombra de perfeição.

Impossível falar de perfeição sem se referir às pedras que existem no caminho para chegar a ela. Desde o século VI, graças ao caráter irrepreensível de um cristão – a saber: Papa Gregório Magno – instituiu-se, não necessariamente no sentido de inventou-se e mais no sentido de aferiu-se dentre muitos, sete atos nocivos que ferem a Deus, a quem os pratica e ao próximo. Desta forma nos afastamos da perfeição. Por esta característica cáustica, são conhecidos como os sete pecados capitais.

Prolixa seria eu, se os listasse aqui agora. Tão desnecessária é tal listagem pela certeza que tenho que eles se fazem sempre presentes em nossas mentes. Sejam como um perturbador ou como um álibi. Atire a primeira pedra aquele que nunca comeu do fruto proibido!

Com todo respeito ao clero, afirmo que é muito simplista delimitar a sete os motivos que nos afastam da perfeição. E enganado está aquele que pensa que a busca por esta tão sonhada perfeição é um privilégio dos cristãos ou dos ditos espiritualizados. Esta busca pulsa tão fortemente nos corações profanos, ateus e agnósticos quanto pulsava no coração de Gregório, Lutero, Cavino e outros heróis e vilões da nossa história.

Embora eu tenha insinuado, linhas acima, que não seria prolixa, como um bom soldado, resta-me enumerar meus arqui-inimigos: gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria, preguiça. Do outro lado do campo de batalha, eu, na minha reconhecida forma imperfeita. Apresentados os combatentes, temos aí uma visível e sangrenta Guerra Mundial. O nosso grande problema é que os horrores desta guerra nos cega para a carnificina das disputas veladas. Esquecemos da Guerra Fria, das guerras urbanas, das guerras no transito, da gripe comum e da desnutrição que mata até 60 vezes mais que as epidemias que a mídia coloca em foco. Estas disputas sangrentas, se instauram silenciosamente, e não temos nem sequer a honradez de admitir a força de cada uma delas. Estas guerras veladas nascem do antigo vício de transformar não em sim e vice-versa. Eis aí nosso oitavo inimigo capital: a dissimulação.

Não é a soberba que leva casais completamente incompatíveis ao altar, às bodas de prata, de ouro, de diamantes; a beijos medíocres, a filhos sem amor. Não é este pecado que embalsama tradições e forma renomadas famílias de doutores que seriam ótimos músicos, formidáveis pintores ou simpáticos pipoqueiros. Não é a avareza que lança bem intencionados projetos de lei, visando a inclusão social. Não é a gula que nos torna capazes de salivar com a propaganda de sorvete no intervalo comercial do documentário sobre a fome na África. Não foi a ira que transformou o romantismo da sedução em um jogo mortal, onde mulheres querem parecer mais fortes e frias e, do outro lado do ringe, os homens treinam, impiedosamente, golpes certeiros para atingir os sonhos de menina que sobrevivem por trás de mulheres alfa. Não é a preguiça e nem a avareza as responsáveis pelos atos secretos e demais rombos milionários aos cofres públicos. A luxúria não é a engrenagem da indústria da moda. Não. Sinto em ter que reconhecer que sempre conduzi minha vida de boa cristã, fugindo dos sete atos nocivos sem dar a mínima importância a um vício que sempre chamei de educação, simpatia, sociabilidade, tolerância.

É a dissimulação que delimita meus padrões de aceitabilidade. Que me rotula para  facilitar meus passos, meus gostos, meus objetivos. É a dissimulação que me conduz a mediocridade de criar minhas fantasias só com a matéria- prima passível de ser realidade. É a dissimulação que me conduz a discussões rasas de conceitos abstratos para mostrar meu engajamento social, ou cultural ou minha preocupação com o meio ambiente. É ela que me conduz aos mais vendidos. É ela o subterfúgio para esconder minha timidez. É a dissimulação que nos conduz ao primeiro gole, ao primeiro trago, ao muitos nãos a estas carnalidades. É ela a raiz de todos os males; da religiosidade cega... da hipocrisia... do puritanismo...

Estaríamos nós um pouco mais longe da imperfeição se, ao invés de fugir dos sete pecados capitais, abandonássemos apenas a oitava tentação e rogássemos sinceramente a Deus, como Santo Agostinho: “Pai, dai-me a castidade e abstinência; mas não ainda."  

 

 
 

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Lagoa Santa, 11 de março  de 2009

A figura feminina está no meu roll de preferências na hora de escrever. Na comemoração do último dia 08 não poderia ser diferente. É extremamente inferiorizante o discurso "dito feminista" que nos compara o tempo todo com os homens. Primeiro que isso aqui não é campeonato de futebol ou luta de box onde os adversários, homem X mulher, devem ficar se agredindo o tempo todo. Se é pra falar de mulher: falemos sobre nós! Se é pra falar de homem: falemos de vocês e ponto final. Comparações com  a intenção de ofender ou mostrar a superioridade de um gênero sobre o outro são extremamente improdutivas. Uma vez que as diferenças são reais e inegáveis e isso não torna um gênero melhor ou pior que o outro.

 

Em se tratando de falar sobre homem, li uma reportagem sobre uma colunista americana, kathleen Parker, que lançou, em nov/08, o polêmico livro "Save the Males" (Salvem os Machos").

Embora seja mulher e reconheça seu valor,  a americana defende um feminismo racional que reconheça que vocês precisam ser valorizados e entendidos (caso tenha interesse, te mando a reportagem).

 

Quanto a minha referência ao Jaguar e ao castelo alheios, pode até ser que você a enxergue como um atestado de incompetência. Entretanto, devo dizer que não nos sentimos sem competência para isso. Tanto que inicio o parágrafo ressaltando nosso espírito guerreiro. Minha intenção era escancarar minha alma feminina, em nome de minhas companheiras, e dizer: Ei, somos empreendedoras, damos duro, trabalhamos muito, queremos uma carreira de sucesso. Porém, tem um outro lado em nós que quer sombra e água fresca.(como todo ser humano, não é!?)

 

Feliz por receber seu comentário!

 

Um abraço,

 

Camila Amaral

 

 
 

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Receita de mulher

(Minha versão para a Receita do poeta Vinícius de Moraes)

 

 

Os homens que me perdoem, mas as mulheres são fundamentais.

 

Que haja qualquer coisa de lágrima incontida, de risada reservada. Uma mulher é feita de modernidade, independência. É decidida, feminina. Seu outro hemisfério é conservador, romântico, dependente, carente, indeciso, confuso, insensível.

 

Que haja força de vontade, espírito de guerreira, garra para conquistar. E que seu outro lado seja feito de interesses, ambições que a levem ao único objetivo de encontrar um príncipe encantado proprietário de, na pior das hipóteses, um castelo e um Jaguar na garagem.

 

É preciso, é absolutamente preciso, que haja crises de histerismo. Ciúmes. Mas que haja também cautela, sabedoria, sexto sentido. Pois uma mulher é feita de bipolaridade, tripolaridade, polipolaridade, sem perder a personalidade, sem negar seus princípios. Uma mulher é feita de sarcasmo, de olhos que olham com certa maldade inocente.

 

Uma mulher é feita de um bocado de amigas que sejam capazes de odiar, com todas as forças de suas almas, o canalha que a fizer sofrer. E que, na mesma intensidade, tenham a capacidade de perder o sono, o apetite, desatinar pelo canalha que lhe devolver os seus sonhos de menina. Ah, que a mulher tenha alguma coisa de menina! E que num piscar de olhos, transforme-se em fera, sem perder a sua graça.

Que esta sua volubilidade a faça acordar às duas da manhã, só para mudar a cor dos cabelos. E atenção: respeitem! Este é um ritual quase que sagrado, que a faz acreditar que ela tem a capacidade de mudar o rumo de sua vida. E que esta fé se concretize ao escolher um novo tom de esmalte e um vestido que lhe traga a certeza de que o mundo está aos seus pés.

Que haja fé (sempre!). Este é o único motivo que a faz insistir em trazer novos habitantes a esta casa de sábios que constroem bombas. É ela quem se ajoelha todas as noites pelos seus filhos perdidos e distantes.

 

Que haja carnavais e quartas de cinzas. Que haja o efêmero e as lembranças. Que haja sorrisos e tramas. E é preciso que tudo isso seja sem ser.

 

Que haja sempre mulheres como nós; como as que você tem ao seu lado; como as que você deixou passar; como as que você valorizou; como as que você menosprezou. Como as que admiramos; como as que odiamos; como as que invejamos. Que haja mulheres que, por simplesmente existirem, sejam capazes de somar a tanta imperfeição, uma ponta de divindade.

 

 

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Lagoa Santa, 12 de novembro de 2008


Hoje quero falar do meu medo. Do medo que eu tenho que você me encontre na rua, me olhe, me analise. Isto porque a palavra é uma janela escancarada para a alma inquieta.

Hoje quero falar de distâncias, de laços sanguíneos, de elos que ora parecem desconectados, ora parecem impossíveis de se desligarem. Quero falar do café que incensa a casa pela manhã trazendo a sensação que tudo está bem, que o dia acordou e isto quer dizer que mais um leão foi para a cova. Quero falar que o vício existe de uma forma desoladora e que mesmo ausente, sua presença atemoriza. Quero falar que o mal existe sim e ronda a todos o tempo todo e que por algum motivo, que até então não compreendo, alguns se submetem, se escravizam sem perceber as algemas que os prendem. Uma vez que ele vem morar com você, por mais que ele seja despejado, julgado e condenado, ele parece não querer nunca ir embora. Só quem já o hospedou, sabe o quão inconveniente hóspede ele se revela com o tempo. Quero falar da desconfiança, da falta de segurança, de clareza, da ameaça constante. Por mais provas de confiança que você tenha, sempre estamos esperando a queda e torcendo para que ela demore.


Camila Amaral

 

 

 

Lagoa Santa, 13 de Abril de 2009

 

INVENTÁRIO

Como um fim que se preze, resta-me somente inventariar todos os bens adquiridos no decorrer destes bons 7 anos. Resta-me descrevê-los, não necessariamente da forma como eles são, mas da forma como os vejo, como os sinto, como os escuto. E este momento me serve como um alento, um consolo por não ter dito isso antes a vocês. A minha paixão descarada pelo “poetinha” Vinícius de Moraes é sabida de todos, e por isto roubo dele uma frase, para que vocês entendam o que eu quero com este inventário: “vocês não têm noção de como me são necessários!”

Eis o meu inventário:

Da Alê levo seu estilo fhashion, explosivo, franco, cheio de manias! Levo nossas conversas, cada uma em sua mesa, sem olhar uma para a outra, que versavam desde a última tendência da moda à como criar um filho com sabedoria e liberdade. Levo o privilégio de participar da idealização e realização de um dos momentos mais importantes de sua vida. Levo a alegria de dar o primeiro presente ao Lucas e a certeza que este nosso convívio valerá por toda nossa vida.

Do Felipinho levo o ouvido paciente: incansável ao escutar as minhas tragédias românticas! Levo os conselhos, nem sempre sensatos por partir de uma figura masculina. Levo suas histórias, suas experiências. Levo a sua ranzizice em certo período no qual eu tive que lhe dizer: “hei, tem um tempão que eu não vejo por aqui aquele Felipinho gente boa que conversava comigo no café!” . Levo seu alerta: “tá na hora de abandonar o disquete e comprar um pen drive!”. Levo seus elogios nos dias que eu não tinha lavado o cabelo e estava me sentindo a pior das criaturas. Levo sua sensibilidade que sempre o fazia achar que meus elogios eram uma ofensa.

Da Jura levo o cuidado. E não adianta falar que ela não tem obrigação de arrumar a mesa do café! Levo a vontade de resolver tudo. Levo a sua devoção pela família. Levo as histórias de Santos. Levo as histórias de sua mãe, do quanto ela gostava de morangos e com tudo isso, levo a certeza do quanto é importante amar as pessoas, enquanto elas estiverem por perto.

Do Luiz Felipe levo o silêncio. Os olhos atentos e despropositalmente intimidadores. Intimidam-me, porque sempre me dizem: “não adianta fingir, eu sei o que você quer dizer”. Levo os nossos almoços, os assuntos nunca esgotados. Os questionamentos de quem parece querer polemizar, mas, na verdade, só quer encontrar as respostas. Levo as inúmeras e incontidas gargalhadas que ele me presenteou com suas tragédias gregas regradas a muitos palavrões, ditos com a maior naturalidade. Levo as músicas. A música de seu jeito manso de falar. Levo a surpresa que eu tenho a cada vez que ele me disse “tem uma música que é a sua cara”. Levo Simone Beauvoir e muitos outros.

Da Marli levo a mãe da Pri. A mãe preocupada porque a Pri tinha deixado de ser criança. Levo a mulher que sozinha, criou, educou e sempre buscou realizar os sonhos dessa menina. Levo a Marli dançando funk no baile de 15 anos da Pri (Inédito!). Levo o jeito da Marli se divertir com cara de séria. Não levo só a mãe, mas a mulher. Ora ela me lembra minha própria mãe pelo cuidado e mesmos erros que comete. Ora me lembra uma amiga adolescente que se ilude com nossas paixões e como uma mulher madura sabe a hora de parar. Levo seu conselho pra usar roupas mais coloridas. Levo nossos pontos de vista totalmente divergentes. Levo o seu súbito mal humor quando alguém começa a falar de futebol.

Da Mel levo as risadas. Levo as hilárias histórias. Levo a capacidade de se intrometer no assunto alheio (rsrsrs). Levo, inicialmente, seu jeito descolado, desajuizado, desajustado. Levo a mudança deste conceito. Levo o carnaval de Diamantina e os vários outros carnavais que virão.

Do Rodriguinho levo o Gianecchini! O Gianecchini que não faz disso sua maior qualidade. E na mesa do bar, tribunal onde a sinceridade é a palavra de ordem, eu já disse pra ele, o que vou repetir agora: “em pouco tempo aprendi que você é muito mais que uma carinha bonita!” Aí tem um cara do tipo: menino bão! Que admite a sua necessidade de viver tudo intensamente e com a mesma intensidade que ama, ‘desama’, se doa para os amores e para os amigos.

Eis os maiores bens que adquiri ao longo destes 7 anos!

Camila Amaral

 

 

 

 

Lagoa Santa, 02 de junho de 2009

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

(Vinícius de Moraes)

Quem morre?

(Martha Medeiros by Camila Amaral)

Morre lentamente

Quem não viaja,

Quem não lê,

Quem não ouve música,

Quem não encontra graça em si mesmo

Morre lentamente

Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos...

Baranga, te juro, eu morreria lentamente sem nossas escandalosas gargalhadas; sem nossas confissões de adolescentes de inspiração etílica.

Eu morreria lentamente sem os domingos aparentemente ociosos, porém profundamente produtivos, passados na sua cozinha ou na minha cama redonda.

Eu morreria lentamente se eu não tivesse para quem torcer pra se dar bem na prova, pra tirar carteira de habilitação ou simplesmente torcer para que o telefone dela toque e que ela se permita parecer ridícula só pra fazer o que tem vontade.


Eu morreria lentamente se eu não tivesse me permitido, +/- uns 6 anos atrás, dar uma chance pra aquela patricinha que combinava a unha com o sapato.

Eu morreria lentamente se eu não tivesse a certeza que cada uma de nós está fazendo sua história, seguindo sua vida e que talvez, daqui pouco tempo, as nossas tardes ociosas e noites agitadas serão escassas. Pra variar, parafraseando o poeta: o que prolonga os meus dias é ter a certeza que, os anos vão passar e um dia Gabi e Caetano vão ver uma foto dos meus anos dourados, e vão me perguntar: “mamãe, quem são essas pessoas?”. Daí, eu vou respirar bem fundo, segurar minhas lagrimas no fundo dos olhos e responder: são minhas amigas. Pessoas que fizeram valer a pena...

 

Óculos escuro

 

Óculos escuro é vital. Quisera eu tê-los sempre que eu precisasse. Com eles posso lançar olhares para onde eu quero e negar olhares aos que não quero. Óculos escuro é refúgio para uns e ostentação para outros. Óculos escuro é totalmente paradoxal.

Experimentemos acordar num belo dia ensolarado e nos permitir passar as próximas 24 horas sob estas lentes mágicas capazes de esconder intenções e hospedar invenções. Se eu encontrasse um acessório desse, analisaria o objeto de meu desejo de cima à baixo, de cabo à rabo, IN-DE-CEN-TE-MEN-TE. Logo concluiria que "não, não era bem isso que eu queria". Isto porque, para que o desejo exista e sobreviva, é preciso uma pitada de desconhecimento, de falta de ciência, de consciência, de raciocínio. Coisas estas que os óculos escuros nos permitem. Eles nos dão a coragem de encarar aquilo que temos certeza que, se for visto bem de perto, desmoronará.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, eu me permitiria acordar e dizer: "vou ser Gauche na vida". Andaria pelos becos boêmios europeus. Faria o Caminho de Santiago. Caminharia de mochila nas costas e barraca de Camping. Deixaria em casa a Carteira de Trabalho e Previdência Social e todas as suas demais variações. Deixaria em casa as contas, os livros, a agenda, o celular, o peso de ser a esperança de um futuro bom.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, eu me permitiria dizer não. Faria o que deve ser feito, por mais que me contrariasse. Eu me permitiria ser cruel na medida certa da compaixão. Eu cumpriria com a minha palavra, embora eu não tenha nem mesmo a coragem de pronunciá-la.

Se eu tivesse um par de óculos escuros eu negaria a maturidade, a cautela, a prudência, a boa imagem.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, diria sim às minhas paixões. Eu seria um misto de Vinícius de Moraes e Niemeyer. Eu não negaria paixão aos projetos que hoje considero inviáveis. Eu não negaria paixão a tudo aquilo que os outros já me disseram que não vai dá pé. Eu não negaria paixão à carreira que os consultores consideram sem ascensão. Eu não negaria paixão aos que me desiludem; aos que me desapontam; aos que não atendem aos meus padrões de aceitabilidade.

Eu não negaria paixão aos meus amores mais profanos, nem tão pouco aos meus desejos mais santos.

(publicada na edição de 24/12/08 do Jornal Lagoa Santa Notícias)

Opinião


 

*Corrida pra vender cigarro; cigarro pra vender remédio; remédio pra curar a tosse. Tossir, cuspir, jogar pra fora. Corrida pra vender os carros, pneu, cerveja e gasolina; cabeça pra usar boné e professar a fé de quem patrocina.

“Renata e Talita perdem medalha de bronze para China.”

“Seleção feminina de futebol quer revanche.”

“Diego Hypolito fica em sexto lugar na prova de solo.”

Mas espere aí: Quem ainda se lembra de Daniel Dantas? Pita? Alexandre Nardone? Ana Carolina Jatobá? Izabella? E das ações da Petrobrás? Do Banco Opportunity? E a operação João de Barro? Alguém ainda se lembra? Seu prefeito foi considerado envolvido ou não?

Agora não há lugar para falar destas banalidades. Todos os holofortes estão sobre nossa comissão de atletas: um evento esperado, desejado, planejado. No qual, foram investidos milhões de sonhos, de esforços, de expectativas.

Século após século muita coisa mudou, mas a estratégia do Pão e Circo continua com a mesma eficácia de sempre. No período da Segunda Grande Guerra até Guerra Fria, o poder da mídia era considerado ilimitado. As mensagens eram direcionadas ao grupo, à massa, de forma intencionalmente persuasiva. Não se considerava que esta massa era formada por pessoas, cada uma com sua história de vida, um gosto, uma marca que os fazia portar uma OPINIÃO. O tempo passou e hoje nos consideramos uma sociedade mais crítica e consciente - e este negócio de ser crítico, que outrora era um defeito ou até mesmo motivo para condenação à morte, tornou-se uma qualidade admirável.

Em minha opinião, não há crítico pior que o descriterioso. Aquele que sai por aí metralhando tudo que sem move. Este tipo de crítico é muito hoje, em tempos

em que as unversidades se multiplicam como fungos e bactérias. Praticamente, a crítica tornou-se uma disciplina da grade curricular que transforma as vítimas da carnificina da educação em combatentes de fazer inveja à qualquer Al-Qaedeano que se prese. Aqueles terroristas estão muito além dos muros das universidades. A crítica desenfreada chegou como um modismo atingindo todas as classes sociais. É moda discutir sobre a política, a violência, a queda do dolar, o aquecimento do mercado. O que não percebemos é que não o fazemos por vontade própria: criticamos aquilo que a mídia quer que seja críticado e da forma que ela quer que o façamos. Somos meros repetidores das notícias que ela coloca diariamente em nosso prato. É certo que a mídia coloca em foco as tragédias nacionais, assuntos políticos e econômicos de grande relevância ou competições esportivas que merecem tal holoforte - considerando o direito à informação que nos é resguardado por lei. O que me incomoda é a forma como estes protagonistas saem de cena para dar lugar ao próximo galã. Saem sem pedir licença, sem dizer adeus, sem dizer a que vieram e nem sequer para onde vão. Dando-me a impressão que fui envolvida, seduzida, usada e descartada como uma telespectadora que ficará aguardando a próxima manchete para, novamente, encher sua vida de emoção, ódio, revolta, frustação ou seja lá qual for o sentimento que eles queiram que eu carregue no peito.

Tornamo-nos meras marionetes cheias de razão! Professamos a fé dos que patrocinam o espetáculo, sem sequer conhecermos sua doutrina. Enquanto estamos aqui, como meros expectadores, torcendo para que nossos atletas conquistem o ouro lá fora, não percebemos que estamos perdendo o nosso ouro.


...

Ainda encontro a fórmula do amor

 

Estou em crise conjugal... comigo mesma.  

Sou humana. Não posso negar: sinto raiva, revolta, inveja, questiono a realidade. Procuro uma resposta para “Por que o mundo não é perfeito e justo para todos?”  

Preciso encontrar a fórmula do amor. Não falo ter um companheiro perfeito. Não falo deste amor Eros. Falo da fórmula pra viver passivamente comigo mesma, sem crises conjugais. Há dias que não me suporto, incomodo-me com minhas manias, defeitos, mediocridades; descubro objetivos pessoais baseados na vida de outras pessoas. Hipocrisia! Se cada um se analisar profundamente, verá o quanto é hipócrita. Não foi à toa que Deus nos fez tão ligados aos problemas e defeitos alheios, porque senão já teríamos nos divorciado de nós mesmos.

O outro é sempre um paraíso ou um inferno aos outros alheios. Por isto, você já deve ter acordado desejando ser outra pessoa. Ou desejando ter outra vida completamente diferente da vida que você tem hoje. Acho que 90% dos leitores dariam uma resposta positiva à estas perguntas. Encontrar  a fórmula do amor significa fazer o que gosta e gostar do que faz  - e melhor ainda é se isto de ter dinheiro - e muito dinheiro! Mas não é só ter uma condição financeira confortável que conforta a inquieta alma humana. A maioria de nós passa pela vida  mediocremente - no sentido mais latente desta palavra. Abandonamos aquilo que realmente gostamos ou até mesmo abandonamos as nossas mais utópicas ambições para viver somente aquilo que é passível de ser realidade.

Quantos fazem do trabalho um instrumento de tortura, como a própria origem latina desta palavra o define. Quantos fazem de sua fé uma prisão e não a liberdade de acreditar que o amanhã virá,  e bem melhor, pelo fato de estar guardado com um Ser muito maior que nossas fraquezas. Quantos fazem da procura de seu verdadeiro amor, uma interminável lista de verdades inventadas e se apaixonam cegamente por elas até que um dia a verdadeira verdade bate à sua porta e destrói este romance . Quantos fazem do sacramento família um jogo de tolerância onde, mais cedo um mais tarde, sairão, absolutamente mutilados e desfalecidos,  vários perdedores e nenhum vencedor. Quantos fazem da relação com aqueles que seriam anjos-da-guarda, uma incansável “caça à níqueis” onde o que conta não é a predestinação divina revelada pelas afinidades e sim os benefícios, financeiros ou não, que esta postiça amizade poderia trazer. Talvez você esteja se sentindo ofendido com tantas acusações e para se esquivar, esteja aí listando todos aqueles que passam pela vida exatamente assim. Não falo para você caro leitor onipotente e perfeito. Mas para estas pessoas que você acabou de listar - e por favor, considere-me incluída em sua lista: precisamos encontrar a fórmula do amor!

 

Publicada na Edição nº 92 do Jornal Lagoa Santa Notícias (www.lagoasantanoticias.com.br)

 

 

 

Celebridades

Rotina na redação de uma revista de grande circulação...

Editor chama ao jornalista:

  Vá cobrir a ida da Luciana até a academia.

  E a volta?

  Deixa a volta pra lá e pegue a volta da Adriane.

  E onde ela terá ido?

  E isso tem alguma importância? Eu quero é ver uma saindo e a outra chegando. Fui claro? Eu quero é um flagrante!!!

  Flagrante da Adriane Galisteu chegando em casa e da Luciana Gimenes indo pra academia?

  E se uma delas chegar de carro novo, de cachorro novo? E se uma delas tropeçar? Uma delas pode parar e olhar para o céu... Pô! Será que preciso listar todas as incontáveis possibilidades de termos nas mãos uma espetacular matéria?

 

(Texto adaptado de Márcio Alemão – Revista Carta Capital; Nº 463; 26 de setembro de 2006;  pág 16)

 

 

E assim se produz espetaculares matérias sobre nada. O mais espetacular é o quanto estas matérias ‘recheadas de nada’ são vendidas.

 

Acompanhar a rotina repleta de possibilidades das celebridades é uma tarefa comum para nós, interioranos. É impressionante como a vida alheia nos chama atenção. E o mais engraçado é que não nos interessamos por aqueles de nosso convívio, e sim pela vida das celebridades. Definiria celebridade como aquele que... é... bom... Você! Você pode ser uma celebridade! Assim como eu também não estou isenta dos holofotes da fama. Nós, interioranos, estamos sujeitos a ser o alvo ou o caçador o tempo todo. Se pararmos para pensar, nos interessamos por coisas que em nada acrescenta ou ‘decrescenta’ o nosso acervo intelectual. Interessamo-nos saber quem estava lá, como estava vestido, com quem estava, com quem conversou, com quem não conversou. Interessamo-nos saber se a vizinha se divorciou ou não; se o pai da criança está dando pensão ou não; se os negócios estão indo bem ou não. Interessamo-nos saber se a fulaninha reatou o namoro depois da descoberta da traição e se a resposta for positiva, ainda queremos saber se o perdão foi realmente verdadeiro. Interessamo-nos saber se o carro foi financiado e se não foi: de onde é que ele tirou tanto dinheiro? E por falar neste mal necessário, interessamo-nos saber se o dinheiro que ele tem gastado, não está fazendo falta... Muitos de nós, que vive dando uma de paparazzo das celebridades interioranas, repudiamos o programa do Leão Lobo, sem perceber o quanto somos mais cruéis que a mídia sensacionalista.

 

Caras celebridades, confesso que me senti hipócrita ao escrever estas linhas. Que você e eu possamos aprender a cultivar os bons costumes das cidades do interior, como: ter compadre e compadre, ter vizinho, ter amigos de infância. Em contrapartida, que possamos aprender com as grandes metrópoles a caminhar com indiferença. Atitude esta que, se pararmos pra analisar, nem sempre é negativa.

 

 

(Crônica publicada na edição de 09/05/08 do jornal Lagoa Santa Notícias)

...

 

 Eu queria poder dizer o mesmo 

 

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."

                                                                                                                                 (Raul Seixas)

 

Não deve haver verso tão parafraseado quanto o supracitado. Talvez seja pela beleza da ideologia que ele carrega. Todavia, vivê-lo não é tão belo como cantarolá-lo.

Mudar de emprego, de estado civil, de namorado, de profissão, de cidade, de casa, pede, necessariamente, um abandono. E isto, às vezes, custa-nos quebrar conceitos, valores ou desfazer projetos. Mudança é deixar algo para traz. Toda mudança é um ponto de partida. Raul Seixas conseguiu mudar muitas coisas na história da música e na sua trajetória artística e pessoal. Porém, não foi capaz de prolongar sua vida por não conseguir exercitar sua maravilhosa filosofia e abandonar seu hábito letal. Se até o Pai do Rock tropeçou em seu próprio paradigma, quem dirá nós, pobres mortais.

Eu seria hipócrita ao parafrasear Raul com ar de quem comunga de sua ideologia: ser uma metamorfose ambulante custa muito caro. Na idade média, custaria minha própria vida queimada em uma fogueira ou decepada em uma guilhotina. Hoje, não é diferente. Mudar e mudar sempre perturba os ‘inquisidores do século XXI’. Ser uma metamorfose ambulante não significa, simplesmente, contestar idéias e valores socialmente fundados. Significa permitir-se mudar de planos; permitir-se apaixonar-se todos os dias; permitir-se acreditar nas pessoas. Significa permitir-se não dar ouvidos às pesquisas de mercado e às pesquisas sobre o comportamento humano; significa permitir-se se sentir só entre amigos e outra vez compartilhar com eles o que te aborrece ou te alegra. Significa permitir-se falar sobre família num show de Heavy Metal e falar sobre sexo com seus avós. Significa permitir-se dizer coisas sem sentido e ao mesmo tempo desenvolver teorias revolucionárias. Significa ligar a TV e vê-la noticiando sobre a morte de Isabella Nardone e mesmo assim “acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”*.

 

(*Trecho de Índios – Letra e música de Renato Russo)

(Crônica publicada na edição de 02/05/08 do jornal Lagoa Santa Notícias)

 

Manchete do dia: Uma unha quebrada...

Só quem é mulher saber o valor de uma unha quebrada; de uma meia-calça desfiada; da companhia para ir ao banheiro; de um elogio severo e de uma crítica sincera. Só por estes motivos já merecíamos um dia só nosso!  

 

Amanhã, 08 de março, receberemos milhões de mensagens e homenagens ressaltando as nossas conquistas no campo social, político e profissional. Homenagem merecida. Porém, hoje não quero falar somente das mulheres: quero falar dos homens que nos rodeiam! Estes sim merecem nossa atenção e todo o nosso esforço intelectual para entendermos como eles ainda insistem competir conosco. Em primeiro lugar, isto aqui não é jogo de futebol e não há taça ao final do torneio. Homens e mulheres não deveriam ser adversários como às vezes aparentam na hora da sedução, no campo profissional, no meio social e político. Um não vive sem o outro, não só fisiologicamente falando.   

 

O que seria dos homens sem a intuição feminina que a faz ligar às 2h da manhã de uma segunda-feira só porque pressentiu uma ameaça? O que seria dos homens sem a TPM que é a melhor e mais utilizada justificativa para nossos surtos psicóticos? O que seria dos homens sem nossa sensibilidade? É até redundante usar as palavras ‘sensibilidade’ e ‘mulher’ tão juntinhas. E só quem é mulher sabe o que nos leva a chorar com cenas da ficção e sermos duronas nas horas mais difíceis da vida real. Há aquelas que foram criadas pra não chorar, e isto não as torna menos sensíveis. Só quem é mulher sabe o que é querer ser executiva, dançarina, diplomata, dona de casa, mãe, go-go girl, freira, esposa, solteiríssima convicta, modernista declarada e romântica assumida, tudo numa mesma fração de segundos. Só quem é mulher entende que a gente nunca tem roupa pra sair; que o cabelo e a pele estão sempre precisando de algo mais. Fútil? Às vezes somos sim! E por necessidade. Como defende Jabor, amante das mulheres declarado e consagrado: “Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela ainda por cima, um tratado?”

Meninas, façamos um tratado: sejamos mulheres em toda a amplitude desta palavra. Quer seja nas futilidades ou nas conquistas mundiais. Meninos, façamos um tratado: sejam homens eternamente apaixonados por nossas sandices. Assim viveremos relativamente em paz.

Como presente pelo nosso dia, vai aí um conselho da sábia escritora alemã Ute Ehrhardt: “Meninas boazinhas vão pro céu, as más vão à luta!” 

O Papai Noel está sem saco pro Natal, mas mesmo assim acredite!

Finalmente para muitos e de repente para outros: É NATAL!

Luzes, tradicionais cantigas instrumentadas, muito brilho, sorrisos, fitas, fitilhos, papéis coloridos, festão, frágeis bolinhas de vidro, guirlandas nas portas, sapatinhos nas janelas, lindas árvores natalinas, crianças frenéticas esperando que o bom velhinho atenda a seus pedidos. Enquanto isto, este velhinho simpático está em algum lugar, no fundo da minha imaginação, de saco cheio de tudo isto!

 

Acredito e respeito o ritual natalino original: a celebração do nascimento do Salvador do mundo. Aquele que veio e dividiu o tempo em duas partes e deixou um mandamento que resumi, e ao mesmo tempo reafirma, todos os outros: “ame ao seu próximo como a si mesmo.” É lindo falar de Jesus nesta época: estamos sensibilizados pelo espírito natalino. Olhamos ao nosso redor e enxergamos o próximo do qual nos mantivemos longe o ano todo. Enxergamos os marginalizados, os viciados, os órfãos, os doentes, os pobres... Talvez o façamos para nos redimir da culpa por comprar uma celebração maravilhosa: com muito brilho, muita comida, bebidas e presentes. Não quero condenar o Natal materialista, superficial e comercial que vivemos. Seria uma tentativa frustrante de conscientizar contra a banalização do Natal. Este texto só seria mais um entre centenas que lemos nesta época com a mesma boa intenção. Neste Natal, quero abusar do bom velhinho e lhe mandar a minha lista de desejos.

 

Prezado Papai Noel,

 

Sei que o senhor está de saco cheio, mas aí vão alguns pedidos para este Natal e para os próximos 365 dias:

 

1.       Eu quero me decepcionar incontáveis vezes. Pois quero sempre acreditar nas boas intenções, até que me provem o contrário.

 

2.      Quero me apaixonar centenas de vezes: todos os dias de preferência! Pois a paixão é fogo que arde e não se vê (como disse o poeta). Fogo é guerra por um lado, mas por outro ângulo é entusiasmo. E eu preciso viver com entusiasmo.

  

3.      Não quero superficialidade. Para isto quero ouvir música todos os dias. Quero conseguir sentir esta arte, degustá-la em sua plenitude: melodia e letra. Ouvi dizer que a melodia é como conhecer alguém e se interessar por esta pessoa. A melodia é a atração física, intelectual, filosófica, religiosa que nos leva a estabelecer as nossas relações. E quando esta relação se aprofunda, vem à luz a letra. A letra é composta à medida que conhecemos as pessoas. A letra é a história que criamos das nossas relações. É desta combinação, melodia e letra, que nasce uma grande canção.

 

4.      Papai Noel: sei que, levando-se em consideração outros contos, só tenho direito a três desejos. Entretanto, já que é Natal, gostaria de um último pedido: Permita-me contradizer-me todas as milhares de vezes que eu descobrir que posso ser, desejar, fazer e ter o melhor que eu pensava.

 

Seja Feliz neste Natal, Papai Noel!

  

Faça você também a sua lista de desejos, acredite e aproveite da boa vontade natalina!

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