Celebridades

Rotina na redação de uma revista de grande circulação...

Editor chama ao jornalista:

  Vá cobrir a ida da Luciana até a academia.

  E a volta?

  Deixa a volta pra lá e pegue a volta da Adriane.

  E onde ela terá ido?

  E isso tem alguma importância? Eu quero é ver uma saindo e a outra chegando. Fui claro? Eu quero é um flagrante!!!

  Flagrante da Adriane Galisteu chegando em casa e da Luciana Gimenes indo pra academia?

  E se uma delas chegar de carro novo, de cachorro novo? E se uma delas tropeçar? Uma delas pode parar e olhar para o céu... Pô! Será que preciso listar todas as incontáveis possibilidades de termos nas mãos uma espetacular matéria?

 

(Texto adaptado de Márcio Alemão – Revista Carta Capital; Nº 463; 26 de setembro de 2006;  pág 16)

 

 

E assim se produz espetaculares matérias sobre nada. O mais espetacular é o quanto estas matérias ‘recheadas de nada’ são vendidas.

 

Acompanhar a rotina repleta de possibilidades das celebridades é uma tarefa comum para nós, interioranos. É impressionante como a vida alheia nos chama atenção. E o mais engraçado é que não nos interessamos por aqueles de nosso convívio, e sim pela vida das celebridades. Definiria celebridade como aquele que... é... bom... Você! Você pode ser uma celebridade! Assim como eu também não estou isenta dos holofotes da fama. Nós, interioranos, estamos sujeitos a ser o alvo ou o caçador o tempo todo. Se pararmos para pensar, nos interessamos por coisas que em nada acrescenta ou ‘decrescenta’ o nosso acervo intelectual. Interessamo-nos saber quem estava lá, como estava vestido, com quem estava, com quem conversou, com quem não conversou. Interessamo-nos saber se a vizinha se divorciou ou não; se o pai da criança está dando pensão ou não; se os negócios estão indo bem ou não. Interessamo-nos saber se a fulaninha reatou o namoro depois da descoberta da traição e se a resposta for positiva, ainda queremos saber se o perdão foi realmente verdadeiro. Interessamo-nos saber se o carro foi financiado e se não foi: de onde é que ele tirou tanto dinheiro? E por falar neste mal necessário, interessamo-nos saber se o dinheiro que ele tem gastado, não está fazendo falta... Muitos de nós, que vive dando uma de paparazzo das celebridades interioranas, repudiamos o programa do Leão Lobo, sem perceber o quanto somos mais cruéis que a mídia sensacionalista.

 

Caras celebridades, confesso que me senti hipócrita ao escrever estas linhas. Que você e eu possamos aprender a cultivar os bons costumes das cidades do interior, como: ter compadre e compadre, ter vizinho, ter amigos de infância. Em contrapartida, que possamos aprender com as grandes metrópoles a caminhar com indiferença. Atitude esta que, se pararmos pra analisar, nem sempre é negativa.

 

 

(Crônica publicada na edição de 09/05/08 do jornal Lagoa Santa Notícias)

...

 

 Eu queria poder dizer o mesmo 

 

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."

                                                                                                                                 (Raul Seixas)

 

Não deve haver verso tão parafraseado quanto o supracitado. Talvez seja pela beleza da ideologia que ele carrega. Todavia, vivê-lo não é tão belo como cantarolá-lo.

Mudar de emprego, de estado civil, de namorado, de profissão, de cidade, de casa, pede, necessariamente, um abandono. E isto, às vezes, custa-nos quebrar conceitos, valores ou desfazer projetos. Mudança é deixar algo para traz. Toda mudança é um ponto de partida. Raul Seixas conseguiu mudar muitas coisas na história da música e na sua trajetória artística e pessoal. Porém, não foi capaz de prolongar sua vida por não conseguir exercitar sua maravilhosa filosofia e abandonar seu hábito letal. Se até o Pai do Rock tropeçou em seu próprio paradigma, quem dirá nós, pobres mortais.

Eu seria hipócrita ao parafrasear Raul com ar de quem comunga de sua ideologia: ser uma metamorfose ambulante custa muito caro. Na idade média, custaria minha própria vida queimada em uma fogueira ou decepada em uma guilhotina. Hoje, não é diferente. Mudar e mudar sempre perturba os ‘inquisidores do século XXI’. Ser uma metamorfose ambulante não significa, simplesmente, contestar idéias e valores socialmente fundados. Significa permitir-se mudar de planos; permitir-se apaixonar-se todos os dias; permitir-se acreditar nas pessoas. Significa permitir-se não dar ouvidos às pesquisas de mercado e às pesquisas sobre o comportamento humano; significa permitir-se se sentir só entre amigos e outra vez compartilhar com eles o que te aborrece ou te alegra. Significa permitir-se falar sobre família num show de Heavy Metal e falar sobre sexo com seus avós. Significa permitir-se dizer coisas sem sentido e ao mesmo tempo desenvolver teorias revolucionárias. Significa ligar a TV e vê-la noticiando sobre a morte de Isabella Nardone e mesmo assim “acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”*.

 

(*Trecho de Índios – Letra e música de Renato Russo)

(Crônica publicada na edição de 02/05/08 do jornal Lagoa Santa Notícias)

 

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