Opinião


 

*Corrida pra vender cigarro; cigarro pra vender remédio; remédio pra curar a tosse. Tossir, cuspir, jogar pra fora. Corrida pra vender os carros, pneu, cerveja e gasolina; cabeça pra usar boné e professar a fé de quem patrocina.

“Renata e Talita perdem medalha de bronze para China.”

“Seleção feminina de futebol quer revanche.”

“Diego Hypolito fica em sexto lugar na prova de solo.”

Mas espere aí: Quem ainda se lembra de Daniel Dantas? Pita? Alexandre Nardone? Ana Carolina Jatobá? Izabella? E das ações da Petrobrás? Do Banco Opportunity? E a operação João de Barro? Alguém ainda se lembra? Seu prefeito foi considerado envolvido ou não?

Agora não há lugar para falar destas banalidades. Todos os holofortes estão sobre nossa comissão de atletas: um evento esperado, desejado, planejado. No qual, foram investidos milhões de sonhos, de esforços, de expectativas.

Século após século muita coisa mudou, mas a estratégia do Pão e Circo continua com a mesma eficácia de sempre. No período da Segunda Grande Guerra até Guerra Fria, o poder da mídia era considerado ilimitado. As mensagens eram direcionadas ao grupo, à massa, de forma intencionalmente persuasiva. Não se considerava que esta massa era formada por pessoas, cada uma com sua história de vida, um gosto, uma marca que os fazia portar uma OPINIÃO. O tempo passou e hoje nos consideramos uma sociedade mais crítica e consciente - e este negócio de ser crítico, que outrora era um defeito ou até mesmo motivo para condenação à morte, tornou-se uma qualidade admirável.

Em minha opinião, não há crítico pior que o descriterioso. Aquele que sai por aí metralhando tudo que sem move. Este tipo de crítico é muito hoje, em tempos

em que as unversidades se multiplicam como fungos e bactérias. Praticamente, a crítica tornou-se uma disciplina da grade curricular que transforma as vítimas da carnificina da educação em combatentes de fazer inveja à qualquer Al-Qaedeano que se prese. Aqueles terroristas estão muito além dos muros das universidades. A crítica desenfreada chegou como um modismo atingindo todas as classes sociais. É moda discutir sobre a política, a violência, a queda do dolar, o aquecimento do mercado. O que não percebemos é que não o fazemos por vontade própria: criticamos aquilo que a mídia quer que seja críticado e da forma que ela quer que o façamos. Somos meros repetidores das notícias que ela coloca diariamente em nosso prato. É certo que a mídia coloca em foco as tragédias nacionais, assuntos políticos e econômicos de grande relevância ou competições esportivas que merecem tal holoforte - considerando o direito à informação que nos é resguardado por lei. O que me incomoda é a forma como estes protagonistas saem de cena para dar lugar ao próximo galã. Saem sem pedir licença, sem dizer adeus, sem dizer a que vieram e nem sequer para onde vão. Dando-me a impressão que fui envolvida, seduzida, usada e descartada como uma telespectadora que ficará aguardando a próxima manchete para, novamente, encher sua vida de emoção, ódio, revolta, frustação ou seja lá qual for o sentimento que eles queiram que eu carregue no peito.

Tornamo-nos meras marionetes cheias de razão! Professamos a fé dos que patrocinam o espetáculo, sem sequer conhecermos sua doutrina. Enquanto estamos aqui, como meros expectadores, torcendo para que nossos atletas conquistem o ouro lá fora, não percebemos que estamos perdendo o nosso ouro.


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