Óculos escuro

 

Óculos escuro é vital. Quisera eu tê-los sempre que eu precisasse. Com eles posso lançar olhares para onde eu quero e negar olhares aos que não quero. Óculos escuro é refúgio para uns e ostentação para outros. Óculos escuro é totalmente paradoxal.

Experimentemos acordar num belo dia ensolarado e nos permitir passar as próximas 24 horas sob estas lentes mágicas capazes de esconder intenções e hospedar invenções. Se eu encontrasse um acessório desse, analisaria o objeto de meu desejo de cima à baixo, de cabo à rabo, IN-DE-CEN-TE-MEN-TE. Logo concluiria que "não, não era bem isso que eu queria". Isto porque, para que o desejo exista e sobreviva, é preciso uma pitada de desconhecimento, de falta de ciência, de consciência, de raciocínio. Coisas estas que os óculos escuros nos permitem. Eles nos dão a coragem de encarar aquilo que temos certeza que, se for visto bem de perto, desmoronará.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, eu me permitiria acordar e dizer: "vou ser Gauche na vida". Andaria pelos becos boêmios europeus. Faria o Caminho de Santiago. Caminharia de mochila nas costas e barraca de Camping. Deixaria em casa a Carteira de Trabalho e Previdência Social e todas as suas demais variações. Deixaria em casa as contas, os livros, a agenda, o celular, o peso de ser a esperança de um futuro bom.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, eu me permitiria dizer não. Faria o que deve ser feito, por mais que me contrariasse. Eu me permitiria ser cruel na medida certa da compaixão. Eu cumpriria com a minha palavra, embora eu não tenha nem mesmo a coragem de pronunciá-la.

Se eu tivesse um par de óculos escuros eu negaria a maturidade, a cautela, a prudência, a boa imagem.

Se eu tivesse um par de óculos escuros, diria sim às minhas paixões. Eu seria um misto de Vinícius de Moraes e Niemeyer. Eu não negaria paixão aos projetos que hoje considero inviáveis. Eu não negaria paixão a tudo aquilo que os outros já me disseram que não vai dá pé. Eu não negaria paixão à carreira que os consultores consideram sem ascensão. Eu não negaria paixão aos que me desiludem; aos que me desapontam; aos que não atendem aos meus padrões de aceitabilidade.

Eu não negaria paixão aos meus amores mais profanos, nem tão pouco aos meus desejos mais santos.

(publicada na edição de 24/12/08 do Jornal Lagoa Santa Notícias)

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