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Nunca amei alguém. E hoje pareço entender o porquê. Sou tão intensa que carrego em mim, naturalmente, todas as sensações de quem ama. E isto já basta. Amo independente de haver um alvo. Amo independente da coisa amada. Isto porque amo as coisas que eu invento.

 

Imagine Michelangelo rabiscando, de cima a baixo, a Capela Sisitina...

Imagine Da Vinci retalhando a Mona Lisa...

Imagine Van Gogh destruindo, a pontapés, seus girassóis...

Agora, me imagine destruindo esta cena perfeita que eu mesma criei.

 

E quando um beijo é capaz de silenciar palavras tolas de quem só quer disfarçar a timidez com uma reação verborrágica, passo do paraíso ao inferno num fechar de olhos!

 

Aí percebo que viver com o amor que eu criei é muito mais simples, mais cômodo, menos patológico e patético. No meu mundo é só eu e ele – o amor que eu criei – e não preciso que um telefone toque para que ele acorde. Não careço de uma mensagem na caixa postal para que ele sossegue. Não preciso de mãos firmes e respiração quente para que ele se refresque. Por outro lado, decidi que para merecer pelo menos uma letra da minha biografia, há de ser no mínimo perturbador. 

 

Me parece que os beijos bem articulados – aqueles que vêm acompanhados de mãos atrás da nuca e apnéia – me roubam a alma! Me seqüestram este amor que, por si só, solitário em mim, é tão cauteloso, e sereno, e leve, e absoluto.