A Perda

 

 

Ele pisou o assoalho com a delicadeza herdada de um elefante branco. Sutileza esta aflorada pelo perfume barato daquelas deusas canonizadas por seu imaginário. Elas são o seu remédio: posto perfeito para descarregar suas frustrações, o esporro do chefe, o contra-cheque, o latido do cão na madrugada, o mal humor de Ana, a dor de cabeça dela. Por recomendações pérfidas, ele ingeria, no mínimo, uma dose delas diariamente - acompanhada por uma vodka barata. Em algumas situações, recomendava-se várias doses de qualquer bebida barata, até que as deusas adquirissem formas sinuosas como as curvas da estrada de Santos; seios fartos e invictos perante a gravidade; fisionomia angelicalmente laica.

Praticamente todas as noites, após este tratamento terapêutico, ele pisava, delicadamente, o assoalho, na intenção de não acordar Ana. Executada aquela sinfonia rangente de madeira velha, parou em frente à porta e no tapete Welcome, estava Fred – sonolento, sorriu-lhe com três abanadas de rabo e um esboço de levantar de orelhas. Fred, parecia ser o único na casa que sempre sentia prazer em recebê-lo. Quer fosse logo ao fim do expediente: de gravata afrouxada;  semblante carregado da vitória de ter matado um leão ao conseguir cumprir a promessa que fizera  à Ana na noite anterior (voltar para casa). Fred o recebia com presteza também nas noites que havia sido devorado pelo leão. “Bom garoto!”. Balbuciava ele para Fred, ao mesmo tempo que lhe retribuía o carinho. [As chaves!?] Já não sabia onde estavam as chaves, mas tinha que encontrá-las. Se Ana acordasse seria mais um mar de lágrimas, lamentações, uma enxurrada de [você é igual ao seu pai]; [porque eu não escutei mamãe]; [não tem mesmo jeito com você]; e por último:  PÁÁÁÁÁ!!! Porta na cara e um sofá duro e furado para passar o resto de noite.

 Ele procurava a chave e imaginava tê-la perdido quando foi tirar a carteira do bolso para pagar o Campary para aquela loura. [Ahh! Aquela loura... Que loura...]. Logo se lembrou do quanto ela lhe custou – o dinheiro da conta de luz, água e telefone do mês passado e também deste mês. Voltou a procurar pelas chaves. Poderia tê-las perdido quando se encostou no balcão ao lado de Mário: [É bicho, o trem não tá bão pro meu lado não. Lá na firma, tem nêgo querendo puxar o meu tapete.]. [Pô cara... já que você tocou no assunto...]. E Mário acendeu mais um cigarro enquanto convencia o seu pseudo-amigo de que este mundo vil, definitivamente, conspirava contra ele. Restava-lhe então amar os vícios. Não. Não foi nesta hora que perdera as chaves. Vasculhava cada bolso de sua roupa e elas (as chaves) tinham que estar ali. [Ah, devem ter ficado no carro]. Fez o trajeto inverso no assoalho - agora era sutil como uma manada de hipopótamos. [Xiiii! Não posso acordar Ana, nem o menino], dizia pra si mesmo ao destrancar o carro. Acendeu a luz e viu pendurado no retrovisor interno o sapatinho de Pedro. [O primeiro sapatinho de Pedrinho... ele que me protege...], dizia segurando com apenas um dedo seu pequeno amuleto. Vasculhou os bancos da frente sem nada encontrar. Virou-se para os de trás e os vasculhou simbolicamente. Ao virar-se, [Aaaaiiiii, puta merda! Minha coluna]. Lembrou-se de Ana: [vai procurar um médico. Vai indo você fica aleijado dessa coluna, homem!]. [Ana, ah Ana!]. Boa era a época que eu não sentia a coluna. E, de tantos malabarismos que ele e Ana fizeram naquele mesmo banco traseiro do seu Fusca azul, Pedro viera. Pedro Souza Carvalho! Um bonito nome para um primogênito! Seu João da farmácia (pai de Ana) e a pequena população de Várzea da Palma não acharam. Tiveram que casar; criar responsabilidade e criar Pedro Souza Carvalho. [Quer saber? Não perdi nada com isso.], disse ele, mirando-se no retrovisor. [Opa! Por falar em perder, achei! Achei as chaves! Sabia que estavam aqui!]. Agora voltou a pisar o assoalho, silenciosamente, como uma rajada de fogos na festa da padroeira de Várzea. Fred, fielmente, mais uma vez  lhe sorriu com uma abanada e um esboço de orelhas.

 

Abriu a porta quase como que em um passe de mágica. Agora estava à salvo! Achou as chaves; entrou em casa e Ana e Pedrinho estavam dormindo com anjos. [Anjos... Eles são meus anjos. Ana sim é uma mulher digna... não é como aquelas prostitutas... vadias... aquela loura vadia... ahh aquela loura...]. [Uai!? Como assim!? Onde está Pedro!?]. [Já sei: com medo da bruxa! Dormindo com Ana]. [Tô vendo que vai me sobrar este sofá maldito...]. [Não é que a mulher nem deve tá tão brava assim?! Nem jogou minhas coisas pro sofá à fora!!!]. [Vai que tá me esperando na cama... linda! De camisolinha vermelha..] [Não! vermelho não é cor pra Ana! Azul, aquela bem clarinha]. Abriu a porta devagar e se deparou com o inesperado: não era que Ana estivesse dormindo feito um anjo vestida de azul-clarinho ou como um vício de vermelho provocante. Não era esta a cena com a qual se deparara. No lugar de Ana, havia apenas um pedaço de papel dobrado e dentro dele as seguintes linhas escassas e bem traçadas: [Cansei de perder. Perdi a paciência com você.]