As cartas que mando

 
 

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Lagoa Santa, 11 de março  de 2009

A figura feminina está no meu roll de preferências na hora de escrever. Na comemoração do último dia 08 não poderia ser diferente. É extremamente inferiorizante o discurso "dito feminista" que nos compara o tempo todo com os homens. Primeiro que isso aqui não é campeonato de futebol ou luta de box onde os adversários, homem X mulher, devem ficar se agredindo o tempo todo. Se é pra falar de mulher: falemos sobre nós! Se é pra falar de homem: falemos de vocês e ponto final. Comparações com  a intenção de ofender ou mostrar a superioridade de um gênero sobre o outro são extremamente improdutivas. Uma vez que as diferenças são reais e inegáveis e isso não torna um gênero melhor ou pior que o outro.

 

Em se tratando de falar sobre homem, li uma reportagem sobre uma colunista americana, kathleen Parker, que lançou, em nov/08, o polêmico livro "Save the Males" (Salvem os Machos").

Embora seja mulher e reconheça seu valor,  a americana defende um feminismo racional que reconheça que vocês precisam ser valorizados e entendidos (caso tenha interesse, te mando a reportagem).

 

Quanto a minha referência ao Jaguar e ao castelo alheios, pode até ser que você a enxergue como um atestado de incompetência. Entretanto, devo dizer que não nos sentimos sem competência para isso. Tanto que inicio o parágrafo ressaltando nosso espírito guerreiro. Minha intenção era escancarar minha alma feminina, em nome de minhas companheiras, e dizer: Ei, somos empreendedoras, damos duro, trabalhamos muito, queremos uma carreira de sucesso. Porém, tem um outro lado em nós que quer sombra e água fresca.(como todo ser humano, não é!?)

 

Feliz por receber seu comentário!

 

Um abraço,

 

Camila Amaral

 

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Lagoa Santa, 12 de novembro de 2008


Hoje quero falar do meu medo. Do medo que eu tenho que você me encontre na rua, me olhe, me analise. Isto porque a palavra é uma janela escancarada para a alma inquieta.

Hoje quero falar de distâncias, de laços sanguíneos, de elos que ora parecem desconectados, ora parecem impossíveis de se desligarem. Quero falar do café que incensa a casa pela manhã trazendo a sensação que tudo está bem, que o dia acordou e isto quer dizer que mais um leão foi para a cova. Quero falar que o vício existe de uma forma desoladora e que mesmo ausente, sua presença atemoriza. Quero falar que o mal existe sim e ronda a todos o tempo todo e que por algum motivo, que até então não compreendo, alguns se submetem, se escravizam sem perceber as algemas que os prendem. Uma vez que ele vem morar com você, por mais que ele seja despejado, julgado e condenado, ele parece não querer nunca ir embora. Só quem já o hospedou, sabe o quão inconveniente hóspede ele se revela com o tempo. Quero falar da desconfiança, da falta de segurança, de clareza, da ameaça constante. Por mais provas de confiança que você tenha, sempre estamos esperando a queda e torcendo para que ela demore.


Camila Amaral

 

 

 

Lagoa Santa, 13 de Abril de 2009

 

INVENTÁRIO

Como um fim que se preze, resta-me somente inventariar todos os bens adquiridos no decorrer destes bons 7 anos. Resta-me descrevê-los, não necessariamente da forma como eles são, mas da forma como os vejo, como os sinto, como os escuto. E este momento me serve como um alento, um consolo por não ter dito isso antes a vocês. A minha paixão descarada pelo “poetinha” Vinícius de Moraes é sabida de todos, e por isto roubo dele uma frase, para que vocês entendam o que eu quero com este inventário: “vocês não têm noção de como me são necessários!”

Eis o meu inventário:

Da Alê levo seu estilo fhashion, explosivo, franco, cheio de manias! Levo nossas conversas, cada uma em sua mesa, sem olhar uma para a outra, que versavam desde a última tendência da moda à como criar um filho com sabedoria e liberdade. Levo o privilégio de participar da idealização e realização de um dos momentos mais importantes de sua vida. Levo a alegria de dar o primeiro presente ao Lucas e a certeza que este nosso convívio valerá por toda nossa vida.

Do Felipinho levo o ouvido paciente: incansável ao escutar as minhas tragédias românticas! Levo os conselhos, nem sempre sensatos por partir de uma figura masculina. Levo suas histórias, suas experiências. Levo a sua ranzizice em certo período no qual eu tive que lhe dizer: “hei, tem um tempão que eu não vejo por aqui aquele Felipinho gente boa que conversava comigo no café!” . Levo seu alerta: “tá na hora de abandonar o disquete e comprar um pen drive!”. Levo seus elogios nos dias que eu não tinha lavado o cabelo e estava me sentindo a pior das criaturas. Levo sua sensibilidade que sempre o fazia achar que meus elogios eram uma ofensa.

Da Jura levo o cuidado. E não adianta falar que ela não tem obrigação de arrumar a mesa do café! Levo a vontade de resolver tudo. Levo a sua devoção pela família. Levo as histórias de Santos. Levo as histórias de sua mãe, do quanto ela gostava de morangos e com tudo isso, levo a certeza do quanto é importante amar as pessoas, enquanto elas estiverem por perto.

Do Luiz Felipe levo o silêncio. Os olhos atentos e despropositalmente intimidadores. Intimidam-me, porque sempre me dizem: “não adianta fingir, eu sei o que você quer dizer”. Levo os nossos almoços, os assuntos nunca esgotados. Os questionamentos de quem parece querer polemizar, mas, na verdade, só quer encontrar as respostas. Levo as inúmeras e incontidas gargalhadas que ele me presenteou com suas tragédias gregas regradas a muitos palavrões, ditos com a maior naturalidade. Levo as músicas. A música de seu jeito manso de falar. Levo a surpresa que eu tenho a cada vez que ele me disse “tem uma música que é a sua cara”. Levo Simone Beauvoir e muitos outros.

Da Marli levo a mãe da Pri. A mãe preocupada porque a Pri tinha deixado de ser criança. Levo a mulher que sozinha, criou, educou e sempre buscou realizar os sonhos dessa menina. Levo a Marli dançando funk no baile de 15 anos da Pri (Inédito!). Levo o jeito da Marli se divertir com cara de séria. Não levo só a mãe, mas a mulher. Ora ela me lembra minha própria mãe pelo cuidado e mesmos erros que comete. Ora me lembra uma amiga adolescente que se ilude com nossas paixões e como uma mulher madura sabe a hora de parar. Levo seu conselho pra usar roupas mais coloridas. Levo nossos pontos de vista totalmente divergentes. Levo o seu súbito mal humor quando alguém começa a falar de futebol.

Da Mel levo as risadas. Levo as hilárias histórias. Levo a capacidade de se intrometer no assunto alheio (rsrsrs). Levo, inicialmente, seu jeito descolado, desajuizado, desajustado. Levo a mudança deste conceito. Levo o carnaval de Diamantina e os vários outros carnavais que virão.

Do Rodriguinho levo o Gianecchini! O Gianecchini que não faz disso sua maior qualidade. E na mesa do bar, tribunal onde a sinceridade é a palavra de ordem, eu já disse pra ele, o que vou repetir agora: “em pouco tempo aprendi que você é muito mais que uma carinha bonita!” Aí tem um cara do tipo: menino bão! Que admite a sua necessidade de viver tudo intensamente e com a mesma intensidade que ama, ‘desama’, se doa para os amores e para os amigos.

Eis os maiores bens que adquiri ao longo destes 7 anos!

Camila Amaral

 

 

 

 

Lagoa Santa, 02 de junho de 2009

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

(Vinícius de Moraes)

Quem morre?

(Martha Medeiros by Camila Amaral)

Morre lentamente

Quem não viaja,

Quem não lê,

Quem não ouve música,

Quem não encontra graça em si mesmo

Morre lentamente

Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos...

Baranga, te juro, eu morreria lentamente sem nossas escandalosas gargalhadas; sem nossas confissões de adolescentes de inspiração etílica.

Eu morreria lentamente sem os domingos aparentemente ociosos, porém profundamente produtivos, passados na sua cozinha ou na minha cama redonda.

Eu morreria lentamente se eu não tivesse para quem torcer pra se dar bem na prova, pra tirar carteira de habilitação ou simplesmente torcer para que o telefone dela toque e que ela se permita parecer ridícula só pra fazer o que tem vontade.


Eu morreria lentamente se eu não tivesse me permitido, +/- uns 6 anos atrás, dar uma chance pra aquela patricinha que combinava a unha com o sapato.

Eu morreria lentamente se eu não tivesse a certeza que cada uma de nós está fazendo sua história, seguindo sua vida e que talvez, daqui pouco tempo, as nossas tardes ociosas e noites agitadas serão escassas. Pra variar, parafraseando o poeta: o que prolonga os meus dias é ter a certeza que, os anos vão passar e um dia Gabi e Caetano vão ver uma foto dos meus anos dourados, e vão me perguntar: “mamãe, quem são essas pessoas?”. Daí, eu vou respirar bem fundo, segurar minhas lagrimas no fundo dos olhos e responder: são minhas amigas. Pessoas que fizeram valer a pena...

 

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