Vida doméstica é para gatos!!!

 
 

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Nunca amei alguém. E hoje pareço entender o porquê. Sou tão intensa que carrego em mim, naturalmente, todas as sensações de quem ama. E isto já basta. Amo independente de haver um alvo. Amo independente da coisa amada. Isto porque amo as coisas que eu invento.

 

Imagine Michelangelo rabiscando, de cima a baixo, a Capela Sisitina...

Imagine Da Vinci retalhando a Mona Lisa...

Imagine Van Gogh destruindo, a pontapés, seus girassóis...

Agora, me imagine destruindo esta cena perfeita que eu mesma criei.

 

E quando um beijo é capaz de silenciar palavras tolas de quem só quer disfarçar a timidez com uma reação verborrágica, passo do paraíso ao inferno num fechar de olhos!

 

Aí percebo que viver com o amor que eu criei é muito mais simples, mais cômodo, menos patológico e patético. No meu mundo é só eu e ele – o amor que eu criei – e não preciso que um telefone toque para que ele acorde. Não careço de uma mensagem na caixa postal para que ele sossegue. Não preciso de mãos firmes e respiração quente para que ele se refresque. Por outro lado, decidi que para merecer pelo menos uma letra da minha biografia, há de ser no mínimo perturbador. 

 

Me parece que os beijos bem articulados – aqueles que vêm acompanhados de mãos atrás da nuca e apnéia – me roubam a alma! Me seqüestram este amor que, por si só, solitário em mim, é tão cauteloso, e sereno, e leve, e absoluto.

 

 
 

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Receita de mulher

(Minha versão para a Receita do poeta Vinícius de Moraes)

 

 

Os homens que me perdoem, mas as mulheres são fundamentais.

 

Que haja qualquer coisa de lágrima incontida, de risada reservada. Uma mulher é feita de modernidade, independência. É decidida, feminina. Seu outro hemisfério é conservador, romântico, dependente, carente, indeciso, confuso, insensível.

 

Que haja força de vontade, espírito de guerreira, garra para conquistar. E que seu outro lado seja feito de interesses, ambições que a levem ao único objetivo de encontrar um príncipe encantado proprietário de, na pior das hipóteses, um castelo e um Jaguar na garagem.

 

É preciso, é absolutamente preciso, que haja crises de histerismo. Ciúmes. Mas que haja também cautela, sabedoria, sexto sentido. Pois uma mulher é feita de bipolaridade, tripolaridade, polipolaridade, sem perder a personalidade, sem negar seus princípios. Uma mulher é feita de sarcasmo, de olhos que olham com certa maldade inocente.

 

Uma mulher é feita de um bocado de amigas que sejam capazes de odiar, com todas as forças de suas almas, o canalha que a fizer sofrer. E que, na mesma intensidade, tenham a capacidade de perder o sono, o apetite, desatinar pelo canalha que lhe devolver os seus sonhos de menina. Ah, que a mulher tenha alguma coisa de menina! E que num piscar de olhos, transforme-se em fera, sem perder a sua graça.

Que esta sua volubilidade a faça acordar às duas da manhã, só para mudar a cor dos cabelos. E atenção: respeitem! Este é um ritual quase que sagrado, que a faz acreditar que ela tem a capacidade de mudar o rumo de sua vida. E que esta fé se concretize ao escolher um novo tom de esmalte e um vestido que lhe traga a certeza de que o mundo está aos seus pés.

Que haja fé (sempre!). Este é o único motivo que a faz insistir em trazer novos habitantes a esta casa de sábios que constroem bombas. É ela quem se ajoelha todas as noites pelos seus filhos perdidos e distantes.

 

Que haja carnavais e quartas de cinzas. Que haja o efêmero e as lembranças. Que haja sorrisos e tramas. E é preciso que tudo isso seja sem ser.

 

Que haja sempre mulheres como nós; como as que você tem ao seu lado; como as que você deixou passar; como as que você valorizou; como as que você menosprezou. Como as que admiramos; como as que odiamos; como as que invejamos. Que haja mulheres que, por simplesmente existirem, sejam capazes de somar a tanta imperfeição, uma ponta de divindade.

 

 

O feitiço e as feiticeiras

 

Sou um infinito particular.

Uma imensidão de pura incerteza.

 

Quem é que nunca se sentiu assim? Nós, mulheres, deveríamos ser criadas em cativeiro e observadas por um grupo de cientistas. Aposto que depois desta empreitada, pouquíssimas coisas ficariam às escuras no universo.

 

A modernidade e esta tal igualdade dos sexos que tanto e tanto procuramos nos fez reféns de nossos próprios anseios. O que deveria nos fazer sentir superiores deixa-nos, a cada dia que se passa, mais inseguras. Quem de nós, nunca se viu divagando sobre os próprios sentimentos e atitudes e fazendo aquela antiga e demagoga promessa: “Na próxima vez não vou me deixar levar, não vou me enganar com mais ninguém. Sou uma mulher madura, bem resolvida. Moderna. Eles são todos iguais.” Segundo as estatísticas, a terra nem chega a completar seu bale anual em torno do Sol e estamos lá, outra vez, acreditando que acabamos de encontrar o pai do Caetano e da Gabi. Começamos a planejar o próximo fim de semana, ou melhor, o que vamos falar quando ele ligar lá pela quinta ou sexta-feira. Planejamos a desculpa esfarrapada que vamos dar pra telefonar (caso ele não telefone lá pela quinta ou sexta-feira). Planejamos como nos vestir, como nos portar e sobre quais assuntos falar no primeiro evento social quando passaremos pela cruel, porém necessária aprovação dos amigos dele. Planejamos o primeiro almoço em família. A cor do quarto, os coqueiros no jardim. Tudo isto, planejamos em apenas 30 segundos ou nos segundos que durarem aquele primeiro beijo. Não adianta, por mais que digamos o contrário, a mulher foi produzida com um dispositivo para conjugar o verbo ACREDITAR e PLANEJAR. Este dispositivo é ultra-resistente a qualquer UP-grade da espécie.

 

A grande questão é que esta tal “igualdade dos sexos” que buscamos no campo profissional e social nos fez acreditar que também devemos dormir depois do sexo, ou melhor (ou pior, se preferir), ligar a TV pra assistir o segundo tempo do campeonato mineiro. E digo mais: esta tal “igualdade” que buscamos nos fez acreditar que precisamos e fazemos sexo. Deixamos de querer fazer amor e passamos a fazer sexo (Como eles!). Atitude esta que nos machucava, agora é vista por nós como um padrão de comportamento. Não queremos nos envolver. Queremos ter, na melhor das hipóteses, um homem provido do mínimo de capacidade intelectual para palpitar sobre nossos assuntos e  para muitas nem precisa ser rico, pois podem se dar ao luxo de escolher o tipo de gigolô que querem sustentar. Nossos elogios se restringem ao seu desempenho sexual (se merecidos). E se falhar, somos cruelmente sarcásticas. Igualamos-nos a eles em tudo que sempre abominamos. O feitiço, literalmente, virou-se contra as feiticeiras.

 

Comungo dos dogmas da “geração igualdade dos sexos”, mas não com visão ortodoxa e sim renovada, neoliberal. Não acredito que devamos nos martirizar para honrar nossas precursoras que queimaram seus soutiens em praça pública. Não deveríamos nos envergonhar de ouvir o Frejat cantar “eu procuro um amor que ainda não encontrei, diferente de todos que amei” no volume 25 do CD-PLayer enquanto estamos engarrafadas no trânsito de uma sexta-feira depois do expediente. Não deveríamos ter vergonha de locar Uma linda mulher ou Gosth. Não deveríamos ter vergonha de ligar pra ele depois daquele encontro MA-RA-VI-LHO-SO e dizer isto com a mesma entonação e intensidade das doces e recentes lembranças.

 

Mulheres! Um alerta: Os homens andam dizendo por aí que somos um bando de insensíveis.

A verdadeira história do descobridor das Américas

A quem se deve realmente a descoberta das Américas, à Cristovão Colombo, à Américo Vespúcio ou aos próprios índios nativos da região? Esta pergunta intrigante tem provocado muita controvérsia nas últimas décadas. É sobre este primeiro suspeito que vou discorrer hoje. Afinal, Colombo não morreu!

Até bem pouco tempo, Cristovão Colombo era tido como um homem de larga visão e caráter obstinado, o sábio defensor da certeza de que a Terra era redonda, o homem que fez um ovo parar em pé e abriu as portas do Oceano Atlântico. Na contramão da história que aprendemos, alguns autores descrevem este personagem de forma bem diferente. Das várias versões prefiro a mais polêmica (afinal, isto dá IBOPE).

Há controvérsias até quanto ao local do nascimento de Colombo. Alguns acreditam que ele nasceu em Gênova, mas muitos historiadores atribuem seu nascimento à região das ilhas portuguesas ou até mesmo a Portugal. Daí já se vê a confusão que circunda esta figura. Homem vulgar, ganancioso e obcecado pelos títulos de nobreza: assim o descreve o escritor e historiador americano Kirkpatrick Sale. Além destas características que desabonam seu caráter, ouvi dizer que suas habilidades profissionais não eram lá grandes coisas. Suas anotações de navegação eram extremamente confusas e inconsistentes.

Colombo, um cara sobre o qual não se pode afirmar nem sequer de onde veio, por sua vez, não sabia onde queria chegar. Apesar de ter realizado quatro viagens às Américas, nunca soube descrever fielmente onde realmente esteve. Isto porque chegou às Américas por conseqüência de uma série de equívocos. Colombo fez um plano inovador para chegar às Índias navegando para oeste, cruzando o Oceano Atlântico. Mas logo de cara cometeu um erro terrível: demarcou as bases para suas viagens utilizando cálculos em milhas árabes, que correspondem a 1.975,5 metros, diferente da milha italiana, 1.477,5 metros. Como um grande navegador poderia cometer um erro deste? Dizem as más línguas que ele o fez propositalmente, pois se revelasse a distância verdadeira, cerca de quatro vezes maior, nunca teria encontrado alguém que lhe financiasse tal sandice. Para conseguir financiamento para seu plano, teve que chorar em três reinos: Portugal, França e Inglaterra. Só na quarta tentativa Colombo, literalmente, “encontrou a mina” (no sentido mais amplo desta expressão). A mina se chamava Isabel (Rainha de Castella – Espanha). Dizem alguns historiadores que a nobreza ficou tão “apaixonada” pelo plano desafiador de Colombo que até penhorou jóias para financiá-lo.

Analogicamente, o Colombo do século XV ainda vive em pleno século XXI. O Colombo do século XXI é aquele cara que não sabe de onde veio e acha que sabe aonde quer chegar. Seu plano de navegação está baseado em milhas árabes. Enquanto o resto do mundo basea-se nas milhas italianas. Mesmo assim, Colombo prefere as árabes. Este cálculo da Escola de Navegação é nítido nas atitudes do Colombo contemporâneo que justifica seus atos em valores que são somente seus. É egoísta. Não está nem aí para os valores e sentimentos dos outros. Atropela as milhas italianas e utiliza-se de cálculos ilógicos pra convencer alguém a financiar suas idéias.  

Ciscam daqui e dali: Portugal, França, Inglaterra, Espanha. Não importa onde, o que vale é encontrar a mina. Alguém que acabe penhorando suas jóias para saciar o seu desejo, fruto do seu egoísmo. Às vezes somos Izabel: penhoramos nossas jóias em prol de planos gananciosos de Colombo (não temos idéia de onde nos levarão). O fazemos não por pura compaixão à Colombo, mas porque Isabel anseia encontrar novas terras. O pior é depois de tudo atracar em novas terras, como nosso desbravador, e não fazer idéia de onde chegamos realmente.

É isto que acontece no século XXI: temos muitas oportunidades de atracar em novas terras e quando chegamos lá não percebemos, pois nossos cálculos estão baseados em valores falsos. Com base falsa, não há plano de navegação que se safe. Estas novas terras podem ser: pessoas, bens materiais, lugares, cargos, empregos, empreendimentos. O Colombo do século XV esteve quatro vezes nas Américas sem saber onde realmente estava. Na quarta vez, já perturbado por uma tremenda confusão interior, se auto-intitulou “Dom Cristóvão Colombo, Vice-Rei e Governador de todas as ilhas e terras firmes do Ocidente”. Colombo pisou várias terras, mas nunca as possuiu em sua plenitude. O Colombo do século XXI também é assim: pisa novas terras, mas não as possui. Passa por cargos com autoridade legitimada, porém não conquista o respeito e admiração de seus liderados. Há Colombos que são lideres de mercado por fruto de seu malcaratismo que pode até encurtar o caminho para a marca ser respeitada, mas não o torna um empreendedor de respeito. Há Colombos por aí que têm várias mulheres, mas não as conquista de verdade. E pode até ser que ele venha a gostar de uma delas, mas não é capaz de fazê-la feliz. Suas atitudes estão baseadas nas milhas árabes, enquanto as desta mulher e do resto do mundo giram em torno das milhas italianas.

É importante lembrar o fim da história do nosso herói: Colombo teve seu mérito ao descobrir as Ilhas do Haiti e República Dominicana, recebeu inúmeras honrarias e dezenas de banquetes. Foi recebido como herói ao voltar para a Espanha. Apesar de todo este reconhecimento, passou os últimos anos de sua vida atormentado pelas crises de temperamento e alucinações constantes. Talvez conseqüência de uma crise de consciência por ter vivido guiado por milhas árabes a fim de ser aceito, idolatrado e desfrutar de privilégios da nobreza. Colombo morreu dono de uma fortuna considerável, porém, totalmente atormentado.

Às vezes é preciso perder, para não se perder e encontrar o que realmente é seu.

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